sexta-feira, 22 de março de 2019

LOUCURA


Chamais-me louco
Porque não sigo as vossas orientações.
Apelidais-me de louco
Porque não partilho as vossas convicções.

Considerais-me louco por não cruzar
Os caminhos que me quereis traçar?

Como quereis que vos siga?
Se vós ouvis o murmúrio das tardes
E eu ouço o canto das sereias.
Ouvis o ruído das cidades
E eu ouço os poemas das baleias.
Ouvis o grasnar das gentes,
Eu ouço o cântico das aves.
Ouvis a música dos homens,
Eu ouço a melodia dos planetas,
O movimento do infinito
E o dialogar do vento.
Os silêncios do levante
E do poente.
Sou louco por não ouvir os vossos conselhos!?
Ide-vos cavaleiros da adversidade,
Deixai-me com a minha loucura,
Delirante, de alma ardente.
É a loucura que me governa,
Que me sustenta.
Com ela me deito,
Com ela me levanto,
Companheira eterna.
Sem ela seria nada,
Prefiro a minha loucura
À vossa serenidade,
Hipócrita bondade!

in Antologia, Homenagem a António Maria Eusébio, O Calafate, pelos 200 anos do seu nascimento, Associação Casa da Poesia de Setúbal, 2019.

Do Tríptico: Crítico, Julgamento e Loucura

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados

JULGAMENTO


Vós tivestes pai e mãe
E nascestes em berços bordados a fina seda.
Eu nasci das entranhas da terra,
Esgravatei a pulso o meu nascimento.
Tive como alcofa o cheiro da argila
E por manto as folhas secas do Outono.
Gatinhei na lezíria por entre campos de papoilas e trigo,
Aprendi a ler no cântico das aves e no movimento das estações,
Tive por mestres o balouçar do vento
E as viagens dos equinócios.
Resgatei-me à profundeza das águas dos rios
E bebi água de mil fontes.
Cresci entre as pedras
E tive por companheiros os montes.
Eu fui antes de ser
E morri entes de morrer.
Vós que pensais tudo saber
Apenas me julgais,
Mas para esse direito vos puderdes arrogar,
Tendes de padecer o que eu padeci
E minha cruz carregar.
Bebendo da minha condição
Julgai-me (de)pois então!

in Antologia, Homenagem a António Maria Eusébio, O Calafate, pelos 200 anos do seu nascimento, Associação Casa da Poesia de Setúbal, 2019.

Do Tríptico: Crítico, Julgamento e Loucura


Fernando Alagoa © todos os direitos reservados